Em grande estilo e no mais alto nível, Ary de Oliveira Junior completa 93 anos
Radialista que marcou a história da comunicação guarapuavana faz aniversário em 24 de setembro. Ao Portal Garganta, deu detalhes de sua trajetória pessoal, profissional e da rotina no SOS Guarapuava
Em um dos quartos compartilhados do Serviço de Obras Sociais Airton Haenisch (SOS), um homem baixinho, magro e muito agasalhado guarda uma caixa de fotos, um cobertor de estimação e uma voz inconfundível. Com um vocabulário e memória de dar inveja, Ary de Oliveira Junior, radialista que marcou época em Guarapuava, completa 93 anos no dia 24 de setembro de 2026.
Ele recebeu a equipe do Portal Garganta em um dos jardins da casa de repouso onde vive, localizada no bairro Santa Cruz. Ary é um dos mais de 30 idosos assistidos pela instituição e é considerado o porta-voz do SOS. Mesmo depois da aposentadoria, a comunicação continua presente no dia a dia de Ari, já que é ele que fala em nome de todos sempre que necessário, como em eventos, por exemplo.

Para aquele que, por quase uma centena de vida, nunca abandonou a comunicação, Tonico de Oliveira dedicou uma homenagem ao amigo. Tonico, radialista na Rádio Cultura, escreveu em uma rede social:
Ary carrega na serenidade de olhar a grandeza de quem viveu intensamente os microfones, marcou gerações e ajudou a construir a comunicação regional com talento e paixão.
Os comentários acompanham a homenagem. Dezenas de guarapuavanos demonstram o carinho ao homem cuja voz marcou suas vidas, seja como ouvintes ou como colegas de trabalho.

Natural de Ponta Grossa, Ary veio pela primeira vez a Guarapuava com a família. O pai, serralheiro, e a mãe, parteira, chegaram ao município por conta do trabalho. Alguns anos mais tarde, voltou a Ponta Grossa para finalizar a escola. Lá foi onde também começou a carreira. A primeira experiência dele na comunicação foi na animação de festas de igrejas católicas pela região.
Mas não demorou muito para que a terra do Lobo-Guará o chamasse novamente. “E daí quando pintou o rádio a gente encarou, né?” E a primeira que pintou foi a Difusora; depois dela, todas as outras do município.
E por que escolher Guarapuava para construir vida e carreira? “Eu me adaptei. Povo querido, gente maravilhosa, clima agradável”, afirma Seu Ari. Esse carinho foi a base para que a história de Ary se confunda com a história do município, como reforça o amigo Tonico.
Além das rádios, Ary também atuou em muitas assessorias de imprensa. Em uma das gestões, colaborou para que a cidade se tornasse o polo educacional que é hoje. Foi ele também uma das pessoas que trabalhou para que a Guarapuava tivesse uma emissora católica — a já popular Rádio Cultura.
Justamente pela relevância e contribuição intelectual, Ary ocupa até hoje a cadeira de número 40 da Acadêmia de Letras, Artes e Ciências (Alac) de Guarapuava, da qual, também, foi fundador.

FAMÍLIA E AMIGOS
Ary teve três filhas e um filho. Dois com a primeira esposa e dois com a segunda companheira. A filha mais velha, do primeiro casamento, mora em Natal com a mãe. O irmão dela, único filho homem de Ari, faleceu com 19 anos em um acidente de carro. As duas outras filhas, com a segunda mulher, moram uma em Portugal e a outra em Florianópolis.
O contato com as filhas ocorre via telefone e, com uma delas, é semanal, segundo uma das funcionárias do SOS. Nossa equipe procurou a família de Ari. Contudo, a filha contatada preferiu não dar entrevista.
Apesar da distância dos familiares, Ary recebe visitas eventuais de nomes muito conhecidos na sociedade guarapuavana. Um deles é Getúlio Hyczy, presidente do Grupo Superpão, que vê o amigo anualmente.
A VIDA NO SOS
“Aqui é um paraíso para os idosos. O atendimento é nota 10, viu? Muito bom!”, é assim que descreve a vida no SOS. Perguntamos se ele teria criado vínculo de amizade com os colegas de instituição. “Aqui você vive num complexo de pessoas diferentes, sabe? Muitas não falam, outras não ouvem e você não entende o que muitas pessoas falam. Então você vive aqui num mundo diferente.”
Em outro momento da entrevista, ele menciona que gostaria de estar vivendo no berço de uma família. Mas, já que essa não é uma opção, sente-se confortável com a vida que leva e com as pessoas que convive.
COMO ESTÁ ARY HOJE
Acho que tô no finalzinho da vida, né? Esperando Deus me chamar, porque nós estamos aqui de passagem. Temos um assunto muito sério a cumprir na sequência que se chama eternidade. Nós, passando por essa vida, vamos para a eternidade. Então eu estou na expectativa do encontro com o Pai Eterno para ele me contar por que que eu vim para cá, sabe? E por que estou aqui. Então, a curiosidade que martela diariamente é essa.
Pergunto se ele tem ideia da resposta a esse questionamento, e ele é categórico: nenhuma. Só tem um pedido: “que ele me leve em grande estilo para a vida eterna.”

Amanda Borges
Jornalista e colaborador do Portal Garganta.