Quantas histórias cabem em treze metros
José Luiz Weber tem um sebo e não gosta de aparecer
O SEBO DO LAGO TEM TREZE METROS QUADRADOS. Talvez quatorze. É pequeno de propósito, o servidor público José Luiz Weber procurou um espaço assim porque sabia que se fosse maior teria que contratar gente, organizar horário fixo, virar outra coisa. Fica de frente para o Parque do Lago, o sebo, e abre quando dá. Normalmente quinta e sexta à tarde; sábado de manhã. “Às vezes fica duas, três semanas fechado.” Não tem funcionário nem tem plano de crescer. “Se fosse pra ter um negócio, eu não teria um sebo. Eu ia abrir uma livraria.” O sebo, para José, é hobby levado a sério, ou coisa séria disfarçada de hobby, algo intermediário a isso.
José frequenta sebos há mais de vinte anos. Foi comprando, foi ganhando — gente que sabia do gosto dele começou a doar acervos inteiros. “Uma avó morria, alguém falava: tem umas caixas de livro, não sei o que fazer com isso.” Assim, sem querer muito, chegou a cinco mil livros dentro de casa. Zero espaço. Daí veio a ideia: transformar a montoeira de livros em “micronegócio”, nas palavras dele.
O primeiro sebo foi no interior de São Paulo, em Marília, onde morou muitos anos com a esposa, guarapuavana de nascença. Voltaram para o Paraná no ano passado — família dela é daqui, a dele é de Curitiba, e depois de rodar por cidade grande (“lugar grande é pra passear, não pra morar”), os dois decidiram que uma cidade entre 150 e 200 mil habitantes tem o tamanho certo pra viver.
Trouxe os livros aos poucos. Uns três mil e meio de início; ficou com dois mil em casa — “esses eu ainda tenho um apego maior” — e o resto vai chegando devagar. É, ele mesmo admite, um exercício. “O desapego maior é trazer de casa pra cá.” Às vezes um livro chega ao sebo, fica ali uma semana o encarando, e volta para a casa com ele.
Servidor público há quase vinte anos, José fala de livros do jeito de quem organiza uma coleção mental o tempo inteiro, comparando edições, traduções, preços — “uma tradução vem direto do francês, a outra passa pelo inglês, uma custa trinta reais, outra cento e cinquenta.”
A curadoria do sebo é, ao fim e ao cabo, um espelho do gosto de José: literatura, filosofia, antropologia, poesia, biografia, psicanálise. Nada de economia, nada de autoajuda. Tem edição espanhola de Cortázar, tem Dostoiévski completo, tem Montaigne — “um livro que fala muito comigo são Os Ensaios, você pode reler cinquenta vezes que ele muda”. Gosta de diários. Gosta de regionalismo brasileiro. José Lins do Rego, Graciliano Ramos, O Quinze da Raquel de Queiroz. Gosta de autores orientais, de Nietzsche, dos pré-socráticos.

Mas o acervo também tem vida própria, ele reconhece. Chega gente pra trocar, pra vender, pra doar, e o sebo vai absorvendo gosto alheio. Inclusive literatura jovem, que ele nunca leu, mas que sabe que “gira”.
Guarapuava tem dois sebos: o Akadêmico, tradicional, grande, com funcionário e venda online, e o do Lago, pequeno e com um público mais específico. José não vê disputa nisso.
Quanto mais sebo, melhor. Quanto mais gente vendendo livro, ótimo.
São coisas diferentes, ele insiste. “Eu quero reunir gente que gosta, que vem conversar, que vem trocar.” Sente falta, ele diz, de sebos onde ainda existe alguém do outro lado do balcão capaz de indicar um livro parecido com o que você acabou de gostar.
No fundo, ele descreve o espaço como uma forma de resistência. Contra a pressa, o áudio em dois X e tudo que precisa ser pra ontem. “O livro tem um tempo próprio. A literatura tem um tempo próprio.” Tem objetos antigos ali naquele espacinho, uma máquina fotográfica que criança nenhuma hoje reconhece, um telefone de linha fixa que ele lembra de declarar no imposto de renda como se fosse imóvel. “Eu sou um pouco analógico. Gosto do papel, gosto do cheiro.”

Garganta
Uma garganta que vê, que pensa e que fala