Os caboclos e as metralhadoras
Uma breve conversa sobre o Contestado
Talvez vários de vocês, leitores que me encontraram por aqui, já tenham ouvido falar na Guerra do Contestado, ocorrida na segunda década do século XX. Eu, filho de Nedi, que nasceu no Oeste Catarinense, e que mesmo vindo cedo viver no Paraná manteve muito de suas raízes naquela região, ouvi desde cedo as histórias do conflito e da figura mítica do Monge João Maria.
Muito próxima da região que hoje se delimita o município de Guarapuava, a região do Contestado está localizada entre o sul do Paraná e o norte de Santa Catarina. Foi ocupada por muito tempo por populações caboclas (nomenclatura ainda usada para se referir a sujeitos diversos na região em que estou e escrevo) que sobreviviam da agricultura de subsistência, criação de animais extração de erva-mate. Esse território se chamou de “contestado” pela indefinição das fronteiras estaduais.
O conflito que aqui quero retratar e discutir teve seu agravamento quando o governo federal concedeu à empresa estadunidense Brazil Railway Company, a construção da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande. Como pagamento, recebeu uma extensa faixa de terras ao longo da ferrovia, incluindo o direito de explorar a madeira da região. Esse processo produziu consequências nevrálgicas como a expulsão de milhares de famílias caboclas das terras onde viviam e, após a conclusão da ferrovia, milhares de trabalhadores que ficaram desempregados, sem terras e por consequência sem perspectivas.
Aqui não pretendo pontuar sobre os danos ambientais que certamente ocorreram pelo amplo desmatamento. O Monge João Maria, essa figura que citei no início do texto, circulou pela região, pelo menos em três momentos diferentes, realizando curas, pregando penitência e criticando as injustiças. Não quero aqui fazer uma batalha entre o que a crença popular e a historiografia dizem, apenas quero pontuar que a religião nesse momento funcionou principalmente como uma linguagem de organização política, embora o conflito tenha sido apresentado diversas vezes como uma guerra religiosa.

Acontece que João Maria foi assassinado na Batalha do Irani e, a partir daí, surgiu a crença de seu retorno e passou-se a se organizar as chamadas “Cidades Santas”, comunidades que possuíam liderança coletiva, produção agrícola compartilhada e rejeição às autoridades locais consideradas corruptas. A religião servia como um alicerce moral e político à resistência social.
Os caboclos não lutaram necessariamente contra o regime republicano enquanto forma de governo. Não era centralmente uma luta pela retomada da monarquia. Esses sujeitos revolucionários contestavam a maneira como a República havia sido implantada na região: favorecendo coronéis, grandes empresas e os grandes interesses econômicos enquanto expulsava a população local. Uma resistência popular contra a modernização excludente promovida pela Primeira República.
O governo federal respondeu ao movimento mobilizando uma das maiores campanhas militares da história da república até então. Milhares de soldados, artilharia pesada contando até com as recentes metralhadoras e até mesmo o inaugural uso de aviões para reconhecimento. A estratégia combinava cercos, destruição de plantações, controle de abastecimento e perseguição sistemática aos redutos sertanejos. Estima-se que houve a morte de 8 a 10 mil pessoas durante todo o conflito.
Enquanto isso, os caboclos lutavam contra o exército brasileiro com garrunchas, facões, foices, gaitas e violões, como mostra a imagem que ilustra esta coluna. Ao mesmo tempo dos ataques por terra e ar contra a caboclada, a Velha República e seus defensores abriam frente pela imprensa. Era nela que os caboclos eram retratados como “fanáticos”, “criminosos” e “bandoleiros”. Denominações que foram influenciadas pelas teorias raciais da época que viam os mestiços e os sertanejos como elementos “atrasados” ou “degenerados”.

Meu interesse com essa coluna de forma alguma é defender uma visão monarquista (e pelo que a historiografia mostra também não era a principal pauta dos caboclos). Aqui quero mostrar o seguinte: para desarticular os “delinquentes e degenerados” o Estado brasileiro, junto à burguesia nacional (que de forma alguma se separou do Estado), utilizou e utiliza das diversas armas para desarticular toda e qualquer resistência popular frente às desigualdades. Como diz a música, é preciso estar atento e forte aos ataques que podem vir de todo lado.
Queria poder aqui falar mais sobre o uso da imprensa para a desarticulação dos revoltosos, mas acabei tomando outro caminho. Logo nos encontramos de novo para falar mais sobre os caboclos e outros sujeitos desse brasilzão véio sem portera.

Pedro Teo
Historiador, sambista, compositor, colecionador de discos de vinil e pesquisador da cultura popular. Pensa e escreve entrelaçando história, cultura e política para pensar os Brasis do passado e os que virão.